aposta online bets mulher brasileira

Bets e a crise invisível: 42% das mulheres brasileiras já apostaram online

Ao Vivo de Brasília
Magnific

Uma pesquisa desenvolvida pelo estúdio Clarice (voltado para pesquisas e projetos sobre mulheres e poder), em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto Ideia, revelou uma dimensão até então pouco visibilizada do mercado de jogos de azar no Brasil: 42% das mulheres brasileiras já jogaram ou continuam jogando em plataformas de apostas online.

Do total das entrevistadas, 20% declaram apostar atualmente com frequências variadas, enquanto 22% afirmam ser ex-apostadoras. O estudo, realizado com 2.008 homens e mulheres em todo o país com base nos dados do Censo 2022 e da PNAD 2025 do IBGE, indica que o hábito extrapolou o entretenimento casual para se tornar um fator de pressão sobre a economia e a rotina do lar.

Perfil dos jogos e hábitos de consumo

A preferência das apostadoras femininas concentra-se majoritariamente em modalidades de ritmo acelerado e retorno imediato:

  • Cassinos online (49%): atividades como roleta, caça-níqueis e o popular “Jogo do Tigrinho” lideram a preferência.

  • Jogos de sorte instantânea/crash games (29%): modalidades como Aviator e raspadinhas virtuais.

  • Apostas esportivas/futebol (26%): palpites focados em resultados de jogos de futebol.

A pesquisa aponta ainda que 30% das apostadoras costumam jogar no período da noite ou durante a madrugada (contra 20% entre os homens), momento em que a vulnerabilidade emocional e o isolamento tendem a intensificar o comportamento repetitivo.

Impacto no trabalho, na produtividade e na geração de renda

Um dos pontos centrais identificados pelo levantamento diz respeito ao impacto das bets no mercado profissional e na capacidade geradora de renda dos trabalhadores.

Impacto na capacidade profissional

De acordo com os dados, 40% dos entrevistados afirmam que o vício em apostas compromete a capacidade da pessoa afetada de trabalhar e gerar renda (percepção compartilhada por 36% das mulheres e 45% dos homens). A perda de foco, o esgotamento mental e o endividamento financeiro afetam diretamente o desempenho no emprego formal e na execução de atividades autônomas.

A ilusão da aposta como “trabalho” ou “investimento”

O estudo identificou uma grave distorção cognitiva: em muitos casos, o envolvimento com as plataformas torna-se tão frequente que a aposta passa a ser encarada pela pessoa como uma estratégia de investimento ou até como substituto do trabalho formal.

Essa ilusão é alimentada por discursos apelativos de coaches, cursos pagos e influenciadores digitais que prometem “macetes” e estratégias milagrosas. Especialistas reforçam a necessidade urgente de banir esse tipo de conteúdo enganoso para proteger a estabilidade financeira e profissional das famílias.

Consequências familiares e sociais do vício

O estudo destaca que as consequências do avanço das apostas ultrapassam as perdas financeiras individuais e abalam a estrutura familiar. Para 67% das mulheres ouvidas, as apostas estão “destruindo as famílias brasileiras” (índice que é de 59% entre os homens).

Entre as pessoas que declararam sentir impactos diretos ou indiretos das bets, os principais efeitos relatados no ambiente doméstico foram:

  • Conflitos e brigas familiares: 24%

  • Quebra de confiança nas relações: 24%

  • Desgaste e sofrimento emocional: 21%

  • Queda drástica na qualidade de vida: 12%

  • Endividamento com agiotas: 8% das afetadas declararam que elas ou familiares precisaram recorrer a agiotas para cobrir dívidas de jogo, aumentando a sensação de insegurança física e financeira nos lares.

  • Violência doméstica: 23% dos brasileiros entrevistados afirmam conhecer ou já ter presenciado situações de violência familiar desencadeadas por problemas decorrentes de apostas.

Além disso, a burla à restrição de idade para menores de 18 anos ocorre frequentemente por meio do uso indevido do CPF de adultos da própria residência.

Propostas de regulação e apoio popular

Diante desse cenário, a população demonstra forte apoio a medidas rígidas de controle e restrição:

  1. Proibição Total: 62% das mulheres defendem o banimento definitivo das plataformas de apostas online no Brasil (contra 50% dos homens e 56% do total da população).

  2. Restrição de publicidade: 41% das mulheres acreditam que as empresas poderiam operar, desde que proibidas de fazer qualquer tipo de propaganda.

  3. Bloqueio via Pix: 45% aprovam o bloqueio de transferências via Pix para sites de apostas a beneficiários de programas sociais governamentais.

  4. Canais de apoio: 32% da população geral (e 57% dos apostadores frequentes) demonstram interesse na criação de um canal anônimo de apoio e acolhimento.

Os responsáveis pela pesquisa sugerem diretrizes divididas em três eixos centrais: fortalecimento da rede de saúde pública para atendimento a viciados e familiares; veto rigoroso à publicidade de bets e conteúdos de “dicas/macetes”; e restrição gradual de modalidades mais agressivas, iniciando pelos cassinos online.

Compartilhar notícia