O avanço da dependência de cocaína no Brasil continua gerando um impacto profundo e oneroso no sistema de saúde pública. Um levantamento inédito realizado pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) aponta que as internações hospitalares relacionadas ao transtorno cresceram 19,8% nos últimos cinco anos. O custo total para os cofres públicos ultrapassou a marca de R$ 41 milhões.
Os dados foram extraídos do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH-SUS) e consolidados por meio da plataforma analítica da TechTrials. O recorte temporal compreende o período entre abril de 2021 e março de 2026.
O raio-x das hospitalizações na rede pública
Durante os cinco anos analisados, o SUS contabilizou 45.433 internações por dependência de cocaína. Esse volume de atendimentos envolveu 36.861 pacientes únicos. A diferença entre o número de pessoas e o total de registros evidencia o caráter crônico e recorrente da dependência química, indicando que muitos indivíduos precisaram ser hospitalizados mais de uma vez.
Ao todo, os repasses hospitalares somaram R$ 41,2 milhões, registrando um valor médio de R$ 906,40 por cada internação. Outro indicador que reforça a complexidade do tratamento é o tempo médio de permanência no hospital: 28,8 dias por paciente. O período prolongado reflete a necessidade de um suporte clínico e multiprofissional intensivo.
“O número de internações revela apenas a parcela mais grave dos casos que chegam ao sistema de saúde. A dependência de cocaína é uma condição crônica e frequentemente associada a recaídas, exigindo acompanhamento contínuo e uma rede assistencial estruturada”, explica o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, diretor-presidente da SPDM.
Especialistas alertam que o cenário real pode ser ainda maior. Os dados hospitalares não incluem os pacientes assistidos em ambientes ambulatoriais, nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou aqueles que sofrem com o transtorno mas sequer buscam ajuda médica.
Perfil demográfico e desigualdade regional
A pesquisa da SPDM detalha uma forte predominância de homens nos leitos hospitalares. O sexo masculino respondeu por 74,2% das internações registradas, enquanto as mulheres representaram 25,8% dos casos.
Geograficamente, o impacto financeiro ficou altamente concentrado no Centro-Sul do país. As regiões Sudeste e Sul, combinadas, foram responsáveis por mais de 90% das verbas federais direcionadas a esses tratamentos:
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Região Sudeste: concentrou 47,5% dos gastos totais.
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Região Sul: concentrou 42,6% dos investimentos gerados.
Saúde Suplementar vs. Sistema Único de Saúde
A análise também mapeou o comportamento da demanda na saúde suplementar, cruzando dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) em um período comparativo (entre abril de 2021 e dezembro de 2024).
Neste intervalo de quase quatro anos, os planos de saúde registraram 58.088 internações vinculadas ao uso de cocaína, movimentando um faturamento estimado em R$ 149,7 milhões (média de R$ 2.576,52 por hospitalização). No mesmo período, o SUS computou 32.952 internações, gerando um custo de R$ 29,8 milhões (média de R$ 903,07 por evento).
A SPDM pondera que a comparação direta entre os dois modelos deve ser feita com cautela, uma vez que a saúde suplementar e a pública cobrem populações distintas, operam sob lógicas assistenciais diferentes e adotam tabelas de remuneração próprias.
Desafios além da medicina
O impacto do abuso de substâncias transcende as barreiras dos hospitais. O levantamento ressalta que a dependência química destrói vínculos familiares, dificulta a inserção no mercado de trabalho, empurra o indivíduo para a vulnerabilidade social e eleva drasticamente os riscos de morbidade e mortalidade.
“As internações são apenas um dos componentes do impacto gerado pela dependência química. Os dados reforçam a necessidade de fortalecer políticas de prevenção, ampliar o acesso ao tratamento especializado e consolidar uma rede de cuidados capaz de acompanhar esses pacientes de forma contínua”, conclui Ronaldo Laranjeira.