Setembro verde - transplante de córnea

Recorde de cirurgias não bate alta demanda por transplante de córnea no Brasil

Ao Vivo de Brasília
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O Brasil vive um paradoxo na saúde ocular. De um lado, o país alcançou o maior volume de transplantes de córnea de sua história; de outro, a lista de espera por uma doação bateu a marca de 37.719 pessoas, registrando uma alta expressiva em apenas seis meses.

Os dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) revelam que o tempo médio de espera ultrapassou um ano, impulsionado pelo aumento de diagnósticos, congelamento na tabela de repasses do SUS e gargalos logísticos nos bancos de olhos.

Números e perfil dos pacientes

A fila de espera saltou de 32.639 pacientes para 37.719 em seis meses — uma expansão de aproximadamente 15%. A média atual de espera por um procedimento é de 370 dias (mais de 12 meses), tempo duas vezes maior do que o registrado há uma década, quando o prazo médio era de 174 dias.

Quem mais aguarda por uma córnea?

  • Idosos (65 anos ou mais): representam 47% do total de cadastrados.

  • Mulheres: constituem cerca de 56% da fila de espera.

  • Público infantojuvenil: a lista conta com 753 crianças e adolescentes, número superior aos 616 registrados no final do ano anterior.

Apesar da alta demanda, a infraestrutura do país demonstra capacidade técnica: no último ano, foram realizados 17.790 transplantes de córnea, superando gradativamente as marcas de anos anteriores (12.869 em 2021; 14.082 em 2022; 16.028 em 2023; e 17.108 em 2024).

Por que a fila cresceu?

Segundo especialistas reunidos no 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o represamento reflete uma combinação de fatores estruturais e conjunturais:

  1. Defasagem nos repasses: a tabela de ressarcimento paga aos bancos de olhos não acompanha a inflação do setor há cerca de uma década.

  2. Custos em moeda forte: insumos e meios de preservação tecidual são cotados em dólar, pressionando o orçamento das entidades captadoras.

  3. Exigências sanitárias e legais: novas regulamentações aumentaram a segurança do processo, mas exigem maior investimento operacional das estruturas de captação.

  4. Represamento pós-pandemia: a paralisação dos procedimentos eletivos durante a emergência da Covid-19 acumulou um passivo de diagnósticos que continua sendo absorvido pelo sistema.

Disparidade regional

A eficiência do sistema de captação e transplante varia drasticamente entre os estados brasileiros. Enquanto algumas unidades da federação mantêm rotatividade ágil, outras enfrentam retenção severa ou ausência total de procedimentos.

Estado / Região Diagnóstico do Sistema Desempenho / Situação
Ceará (CE) Referência de agilidade Alta rotatividade: mesmo recebendo +1,6 mil novos casos no ano, fechou o período com menos de 100 pacientes ativos.
Mato Grosso (MT) Gestão eficiente Fila residual pequena, mantendo apenas 37 pessoas na lista de espera.
Rio de Janeiro (RJ) Desequilíbrio grave Desproporção acentuada entre o volume de inscritos e o total de cirurgias realizadas.
Amapá e Roraima Deserto cirúrgico Não registraram transplantes de córnea realizados no último ciclo anual.

Brasil no cenário internacional

Em termos globais, a medicina oftalmológica brasileira permanece altamente avaliada. O volume de procedimentos e a segurança do Sistema Único de Saúde (SUS) colocam o país em patamar equivalente ao de nações como Canadá e Austrália, liderando de forma isolada na América Latina — à frente de México, Colômbia, Argentina e Chile.

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