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Apoio a 109 milhões de pessoas

ONU pede US$ 29 bilhões para ajuda humanitária de emergência

Redação

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Foto/Imagem: Al-Mohibany/Unicef
RTP - Emissora pública de televisão de Portugal

Os programas de ajuda humanitária das Nações Unidas para 2020 precisam de US$ 29 bilhões para dar continuidade aos trabalhos de apoio ao Iémen, Sudão do Sul, e refugiados e deslocados sírios e venezuelanos.

O subsecretário geral da ONU para os Assuntos Humanitários e Ajuda de Emergência, Mark Lowcock, apresentou nesta quarta-feira (4), em Genebra, a lista de necessidades financeiras prioritárias para o próximo ano. O valor é inferior ao de 2018 e inclui apoio a 109 milhões de pessoas.

O maior pedido concentra-se na ajuda humanitária à Síria. Neste caso, a ONU pede US$ 3,3 bilhões para ações no interior do país e US$ 5,2 bilhões de dólares destinados ao apoio aos refugiados que se encontram na Turquia, Líbano, Jordânia e Iraque.

“O conflito na Síria continua a provocar a maior crise de refugiados da atualidade, com 5,6 milhões de pessoas nos países que fazem fronteira com o território sírio, sendo que é preciso acrescentar seis milhões de deslocados internos, no interior do país”, disse Lowcock.

O Iémen, outro país em guerra, encontra-se nas prioridades dos programas humanitários das várias agências da ONU, necessitando, segundo a ONU, de US$ 3.2 bilhões para auxílio “à maior crise humanitária atual”, de acordo com subsecretário da organização.

No Iémen, 24 milhões de pessoas precisam de ajuda. O contingente equivale a 80% da população do país.

Para o Sudão do Sul são pedidos US$ 2,5 bilhões e para a República Democrática do Congo, US$ 2,4 bilhões, estando estes dois países no topo de uma lista composta por quase 20 estados do continente africano.

Para a Venezuela são necessários US$ 750 milhões para auxílio a cidadãos que se encontram no interior do país e US$ 1,35 bilhão para os deslocados internos e refugiados que se encontram nos países vizinhos.

Aquecimento global

Emissões de gases podem elevar temperatura em 3 graus Celsius

Redação

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Foto/Imagem: Pixabay

As atuais emissões de gases de efeito estufa podem levar a um aquecimento global de 3 graus Celsius (ºC), o dobro do que foi estabelecido em acordo, diz a especialista Thelma Krug. Para ela, o limite para o aquecimento é “quanto mais baixo melhor”.

Thelma é vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), organização científica criada no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). A instituição reúne, de hoje (28) a 1º de fevereiro, na Universidade do Algarve, em Portugal, cerca de 260 especialistas em alterações climáticas, numa reunião técnica para a elaboração do sexto relatório de avaliação. No IPCC há três grupos de trabalho e em Faro está reunido o grupo 2, que analisa os impactos das alterações climáticas nos ecossistemas e nas atividades humanas.

Especialista na área de ambiente e florestas, Telma lembrou o relatório do IPCC de outubro de 2018, que alertava para grandes alterações climáticas se os Estados deixarem as temperaturas acima de 1,5ºC em relação à época pré-industrial, limite definido no Acordo de Paris, sobre redução de emissões, como o patamar desejável para a contenção do aquecimento global.

Segundo ela, as contribuições determinadas por cada país “não estão numa trajetória de limitar o aquecimento a um nível baixo”.

“Hoje, se somarmos todas as contribuições que foram colocadas na mesa por todos os países, estamos muito mais na trajetória de um aquecimento de 3ºC, praticamente o dobro do que estaríamos buscando para minimizar os potenciais impactos” das alterações climáticas, afirmou a vice-presidente do IPCC.

“O que esperamos é que os países, ao serem confrontados com esse resultado, entendam que têm de fazer mais, a mensagem que estamos dando é de que não está sendo suficiente”, acrescentou.

A especialista não quer fazer previsões, porque o futuro depende do nível de aquecimento que seja alcançado. Ela tem a certeza, no entanto, de que “cada bocadinho de aquecimento conta”, e que “os impactos que ocorrem com diferentes níveis de aquecimento podem ser muito substantivos”.

Sem otimismo, Thelma Krug lembra que já há espécies ou sistemas fragilizados para os quais o futuro não é promissor. Lembra o degelo das grandes camadas do Ártico, os corais que estão comprometidos e quase “levados à extinção”, e reafirma que o objetivo tem de ser limitar o aquecimento. “Quanto mais baixo melhor”.

De acordo com a especialista, é essa a mensagem que o IPCC procura fazer chegar aos governos, com dados sobre custos e impactos das alterações climáticas e a mensagem de que o melhor é reduzir as emissões muito rapidamente.

Em relação aos governos que ainda resistem às alterações climáticas, Thelma diz que não comenta políticas de países, mas que o IPCC reconhece que há muito trabalho a ser feito por governos locais e regionais.

“A mensagem dos cientistas é muito clara, seria muito melhor que começássemos uma grande transformação em todos os setores, no sentido de reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa”, afirmou, acrescentando que as temperaturas já subiram um grau e que a situação atual é “crítica”.

Limitar o aquecimento global a 1,5ºC no final do século implica emissões zero de gases em 2050, o que exigiria “um grande esforço já”.

Para ela, se em 2050 não se chegar a essas emissões neutras de gases, vai ser mais difícil e serão necessárias tarefas em larga escala, como grandes reflorestamentos. O melhor, diz, seria “começar a pensar nas grandes alternativas para a redução de emissões”.

O relatório final será apresentado em outubro de 2021. Todas as contribuições dos três grupos de trabalho do IPCC vão ser submetidas à aprovação dos governos no próximo ano (grupo I em abril, grupo III em setembro e grupo II em outubro). No ano seguinte será entregue um relatório-síntese com os resultados científicos mais significativos dos três grupos de trabalho.

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Entrevista

‘Nenhum país está protegido do novo coronavírus’, diz brasileiro

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Foto/Imagem: Reuters

Descoberto em dezembro na China, um novo tipo de coronavírus já infectou milhares de pessoas e provocou dezenas de mortes no país, além de ter chegado a mais de uma dezena de outros países, o que colocou autoridades de todo o mundo em estado de alerta.

O 2019-nCoV, como é chamado oficialmente, faz parte de uma ampla família de vírus dos quais sete podem ser transmitidos a seres humanos por animais e causar desde um resfriado comum até problemas respiratórios que levam à morte.

Os coronavírus estiveram por trás de duas epidemias graves recentes. A Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla em inglês) matou 774 das 8.098 infectadas em 2003. Já a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS, na sigla em inglês) matou 858 dos 2.494 pacientes identificados, em 2012.

Mas, até o momento, o novo coronavírus parece ser menos letal que seus antecessores e ter uma capacidade limitada de transmissão entre pessoas, explica o médico sanitarista e epidemiologista brasileiro Jarbas Barbosa.

Barbosa presidiu a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) entre 2015 e 2018 e atualmente é diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço regional nas Américas da Organização Mundial da Saúde (OMS), agência especializada em saúde pública da Organização das Nações Unidas (ONU).

À BBC News Brasil, Barbosa diz que o fato de ser um vírus novo e desconhecido até há pouco tempo é motivo de preocupação, porque cientistas ainda não podem afirmar ao certo como ele continuará a se comportar após ter infectado seres humanos.

“Já vimos que os coronavírus têm uma capacidade de sofrer mutações rapidamente, porque, no intervalo de 16 anos, é o terceiro desta família de vírus que surge”, diz.

Mas Barbosa explica que, desde o início dos anos 2000, novos regulamentos sanitários internacionais foram colocados em prática, o que permite uma reação mais rápida e eficaz a surtos deste tipo — o que é vital, por ser considerado provável que mais epidemias causadas por novos vírus eclodam num futuro próximo.

Confirma a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC – Este coronavírus era desconhecido até dezembro passado. Desde então, o que descobrimos sobre ele?

Barbosa – Esse coronavírus é um novo membro de uma família muito grande de vírus, que já são conhecidos há muito tempo. Normalmente, são vírus que circulam em animais, mas, em algumas ocasiões, determinadas variedades saltam a barreira entre as espécies e infectam humanos. Já tivemos duas situações de surtos importantes com coronavírus no passado. Desde 31 de dezembro, quando este novo coronavírus foi comunicado pelo governo da China à OMS, estamos acompanhando de perto, porque se trata de uma nova variedade e é preciso olhar com atenção as informações que surgem.

Mas algumas características dele já estão bem estabelecidas. Primeiro, é possível haver transmissão entre pessoas. Segundo, esse vírus é capaz de produzir um espectro amplo de doenças, desde casos leves que se assemelham a um resfriado comum até casos mais graves em que há um quadro de pneumonia que pode levar à morte.

Terceiro, parece ser menos letal do que eram os vírus da Sars e da Mers. Para este esse novo vírus, estamos falando em 3% de letalidade enquanto que com os da Sars e Mers chegava a 30% ou mais. E quarto, pessoas de mais idade e quem têm doenças crônicas, como problemas cardiovasculares e diabetes, são mais vulneráveis a desenvolver formas mais graves de doenças.

BBC – E o que não sabemos sobre ele ainda?

Barbosa – Precisamos ter mais informações sobre a real capacidade de transmissão. Para este vírus, com os dados que temos hoje, uma pessoa é capaz de infectar uma ou duas outras pessoas. Isso aponta para uma capacidade limitada de transmissão, quando comparamos com outros vírus que têm uma capacidade de dispersão muito maior como os de sarampo e alguns tipos de gripe.

Mas ainda é cedo para afirmar isso com segurança. Já há quem fale em capacidade de transmissão de duas a cinco pessoas. Mas são previsões com um intervalo de confiança alto. Inclusive, existe a hipótese de que transmissão possa ocorrer no período de incubação [entre o contágio e o surgimento dos primeiros sintomas], mas precisamos de mais tempo para estabelecer se isso é possível e o impacto disso em saúde pública, porque pode ser algo que ocorra apenas com uma minoria dos casos.

Só poderemos fazer afirmações a respeito disso com mais certeza após recebermos os dados que estão sendo coletados na China. Há centenas ou milhares de casos de contatos no país sendo monitorados, e, provavelmente, em duas ou três semanas vamos ter números mais confiáveis, porque, quando uma pessoa é infectada, ela pode levar de uma a duas semanas para apresentar sintomas. Esse rastreamento vai permitir estabelecer melhor a intensidade da transmissão desse novo vírus.

Vemos ter mais casos confirmados nos próximos dias? Com certeza. Mas isso não significa que são novos casos de contaminação, mas casos suspeitos em que houve resultado positivo nos exames. A capacidade de fazer testes é cada vez maior, porque há mais laboratórios e máquinas dedicadas a isso, e isso eleva o total de casos.

Também vai aumentar esse total porque a transmissão segue ocorrendo, e não há nenhuma evidência de que foi interrompida. Então, o número de casos vai crescer nos próximos dias, infelizmente. Mas não há como fazer uma previsão confiável neste momento de qual será a escala desse aumento.

BBC – O que torna este coronavírus preocupante?

Barbosa – Como é um vírus novo e o surto ainda está muito no começo, temos que observar por mais tempo para ver se ele mantém o comportamento observado hoje. Nos últimos dias, por exemplo, a taxa de letalidade caiu, porque o número de casos aumentou muito, mas o número de mortes, apesar de ter crescido, não ocorreu na mesma proporção. Em uma doença como essa, no começo, vemos apenas os casos mais graves, que apresentaram sintomas e procuraram os serviços de saúde, por isso as estimativas são sempre provisórias em um estágio como esse.

Além disso, como esse vírus começou a circular em uma região muito povoada da China, há muito trânsito de pessoas de lá para outros países do mundo. Então, o risco de se ter casos importados em qualquer país do mundo é muito alto. Essas características chamam atenção e tornam necessário que os sistemas de saúde de países de todo o mundo estejam em alerta. No mundo globalizado de hoje, é possível que chegue em qualquer país do mundo algum viajante que veio de uma área onde há transmissão.

É importante estar alerta para detectar precocemente um caso e prevenir que se transmita para outras pessoas para evitar que haja surtos em outros países. Por enquanto essa transmissão ocorre apenas na China, em Wuhan, mas aparentemente já há transmissão em outras províncias. Temos uma comissão na China que está avaliando os dados e, uma vez confirmada a transmissão, todos os países do mundo serão informados ao mesmo tempo.

BBC – Até o momento, a OMS não determinou esse surto como uma emergência global. Por quê? E o que é necessário para que seja configurada uma?

Barbosa – Pelo regulamento sanitário internacional, uma emergência internacional deve ser decreta só após ser ouvido um comitê de especialistas que faz uma recomendação para o diretor-geral. O comitê se reuniu duas vezes e concluiu que são necessárias mais informações que comprovem ser necessária uma coordenação internacional de esforços para conter o surto e que a China sozinha não teria condições de fazer isso. Foi reconhecido que há uma emergência de saúde pública na China.

Há também uma situação de risco no mundo inteiro, porque hoje temos um grande intercâmbio de pessoas por viagens internacionais. Mas o fato de não ter decretado a emergência global não significa que a OMS não esteja atuando em alerta máximo. Por se tratar de uma doença nova, que exige uma busca por novas informações diariamente, foi emitido um alerta para todos os países. Não é necessário esperar a formalidade de decretar uma emergência global para que estejam preparados para agir. O alerta está dado.

BBC – O Brasil pode ser afetado por este surto?

Barbosa – Nenhum país está protegido de receber um viajante que tenha o vírus, inclusive o Brasil. Os países precisam estar preparados, prestando informações aos viajantes e alertando seus serviços públicos e também os privados, porque muitas vezes viajantes internacionais recorrem aos serviços privados. É importante que os países tenham capacidade de realizar os exames para confirmar ou descartar um caso e, ao detectar um, tomar as medidas de contenção para evitar que o vírus se propague e que um caso importado se torne o primeiro caso de transmissão local.

Mas, por enquanto, em todos os outros países, houve apenas casos importados, o que é uma boa notícia e um sinal de que os sistemas de vigilância estão alertas e atuando para fazer uma detecção precoce, que é chave para evitar que o vírus entre no país e provoque surtos.

BBC – Enquanto alguns países decidiram fazer a triagem de passageiros, o governo brasileiro descartou essa medida por considerá-la ineficaz. O senhor concorda?

Barbosa – Todos os dados que acumulamos no mundo depois da Sars, da pandemia de influenza em 2009 e da Mers demonstram que a triagem em aeroportos consome muitos recursos materiais e tem uma eficácia baixíssima. Por exemplo, no caso da pandemia de 2009, estudos mostram que países que implantaram a triagem não tiveram nenhuma diferença em relação a outros países que não fizeram isso.

É claro que dar informações nos aeroportos é importante. Mas o Brasil, até onde eu saiba, não tem voo direto de Wuhan. É uma situação diferente de países que têm, como os Estados Unidos. Embora nenhuma triagem de aeroporto seja 100% eficaz. A pessoa pode passar pela triagem sem ter sintomas, porque o vírus ainda está em período de incubação (quando não apresenta sintomas). É muito mais eficaz os serviços de saúde estarem alertas.

BBC – A China foi no passado recente o epicentro de epidemias de novos vírus. Por que estamos vendo mais uma vez a eclosão de um novo surto no país?

Barbosa – A China tem determinadas características que favorecem esse tipo de surto de vírus que circulam em animais e que ocasionalmente contaminam seres humanos. É um lugar densamente povoado e onde há hábitos culturais que levam a um grande contato de pessoas com animais vivos. Tanto que o que se considera que pode ter sido o epicentro do surto é um mercado onde há circulação, abate e venda de animais muito intensos. Então, em países com estas características, é mais provável que haja esse salto da barreira entre espécies.

Mas é importante lembrar que a pandemia de 2009 começou no México e que a de ebola também não teve nada a ver com a China. Precisamos ter cuidado para não caracterizar a China como a única fonte. Qualquer país pode ser fonte de uma nova doença.

BBC – Em 2003, a China foi criticada por ter demorado a informar a real gravidade da epidemia de Sars. Como o senhor avalia a reação do país desta vez?

Barbosa – Até aqui, a China tem colaborado com a OMS. Notificou os casos, disponibilizou logo no começo de janeiro o sequenciamento genético do vírus, o que possibilita que vários países possam imediatamente fazer o diagnóstico para confirmar ou descartar casos. A China também recebeu uma comissão de técnicos da OMS, que está em Wuhan e em outras cidades para coletar novas informações e evidências.

Mas não é muito apropriado comparar aquela situação com o que ocorre agora porque foi aprovado em 2005 um novo regulamento sanitário internacional. Até então, um país não era obrigado a informar quando detectava uma doença nova. Havia uma lista muito curta de doenças, como peste, cólera, varíola, em que a notificação era obrigatória. Depois disso, qualquer nova enfermidade que possa ser uma ameaça e se disseminar globalmente deve ser notificada. As regras do jogo mudaram.

BBC – Existem muitos vírus ainda desconhecidos?

Barbosa – Ah, sim, infelizmente temos, porque há vírus que têm a capacidade de ter pequenas mutações e criar ramos com características diferentes. Por isso, em locais onde há mercados com presenças de animais, é preciso ter um cuidado especial e tratar a possibilidade de transmissão de doenças entre animais e humanos de uma forma mais abrangente. Neste caso, é um vírus novo. Ele provavelmente surgiu no ano passado, ele já existia e deve ter produzido poucos casos e casos leves em uma região distante e que ninguém percebeu.

BBC – O que podemos esperar desta epidemia nos próximos meses?

Barbosa – Nossa expectativa é que as medidas extraordinárias e inusitadas que a China tem tomado sejam capazes de controlar esse surto na fonte. O país está fazendo um esforço tremendo de mapeamento de contatos, fechou o mercado em Wuhan. A China praticamente colocou em quarentena uma região que tem perto de 40 milhões de habitantes. É uma medida que está sendo tomada pela primeira vez na história. Nunca se fez isso no mundo nesta escala. Nunca vimos uma cidade inteira em quarentena como agora. Mas precisamos ser prudentes, porque se trata de uma situação nova. Temos que vez se essas ações serão eficazes para conter ou cessar a transmissão e se serão sustentáveis ao longo do tempo.

BBC – É possível prever quanto tempo este surto vai durar?

Barbosa – Não, é completamente impossível fazer qualquer previsão agora.

BBC – Veremos a eclosão de novas epidemias num futuro próximo?

Barbosa – Possivelmente, sim. Não é algo que acontece todo dia, mas, quando olhamos para os últimos 30, 40 anos, vemos que há a possibilidade de que isso ocorra mais para frente. Os vírus vão continuar a existir. Novos vírus de influenza aparecem todos os anos, porque têm a característica de sofrer mutações muito rápido — e também já vimos que os coronavírus também têm, porque, no intervalo de 16 anos, é o terceiro desta família de vírus que surge. Então, é possível que isso ocorra de novo daqui a um ano, 10 anos ou 50 anos, é impossível prever exatamente quando. E não há nenhuma medida que possa eliminar essa possibilidade.

BBC – Estamos preparados para combatê-las?

Barbosa – Creio que o mundo está muito melhor preparado do que no passado. Aprendemos muito com os surtos anteriores, mudamos o regulamento sanitário internacional, os países fortaleceram suas capacidades de vigilância epidemiológica e de diagnóstico laboratorial. Mas é preciso nos manter alerta e fazer revisões dos planos nacionais de emergências de saúde pública para que, quando ocorra uma emergência real, tudo esteja pronto para ser colocado em prática de forma eficiente.

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Mais de 4 mil infectados

Na China, número de mortes pelo novo coronavírus passa de 100

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O número de mortes causadas pela nova variante do coronavírus chegou a 106 depois que autoridades da província de Hubei anunciaram  24 mortes na manhã desta terça-feira (28). Autoridades de saúde da China afirmam que mais de 4 mil pessoas foram infectadas.

O premiê chinês Li Keqiang visitou Wuhan, foco do surto, para demonstrar a seriedade com que Pequim está considerando o problema. Li visitou pacientes e profissionais da área médica que estão atuando na linha de frente de combate à doença.

As autoridades de saúde da China afirmam que as pessoas que visitaram Wuhan e outras áreas afetadas serão monitoradas por um período de duas semanas. He Qinghua, funcionário da Comissão Nacional de Saúde, avisou que “qualquer pessoa que tenha sido infectada será imediatamente encaminhada para um hospital e mantida sob quarentena”.

O prefeito de Wuhan, Zhou Xianwang, admitiu que a cidade não forneceu informações sobre a nova variante do coronavírus em tempo hábil. Zhou atribuiu o atraso ao fato de que o governo local tinha a obrigação de conseguir uma autorização antes de divulgar informações.

Até o momento, cerca de 65 casos foram notificados em 17 países e territórios em todo o mundo.

A China está intensificando as medidas para conter o vírus. O feriado prolongado do Ano-Novo Lunar foi estendido até 2 de fevereiro. O surto também está afetando a economia chinesa. As autoridades em Shanghai pedem que estabelecimentos comerciais na cidade permaneçam fechados até o dia 9 de fevereiro.

Diversas escolas e creches na China decidiram adiar a volta às aulas.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, está em Pequim. Ele deve se reunir com autoridades chinesas para discutir a melhor forma de combater o surto.

Impacto internacional

O impacto econômico do surto de coronavírus continua a se espalhar, inclusive fora da China.

O governo chinês diz que o número de pessoas que usam o transporte público em todo o país caiu cerca de 30% por cento no sábado (25), o primeiro dia do Ano-Novo Lunar – em comparação com o mesmo período no ano passado.

Outros países também estão sentindo os efeitos. A China proibiu viagens em grupo para o exterior, incluindo o Japão.

O ministro da Revitalização Econômica do Japão, Yasutoshi Nishimura, disse que os chineses representam cerca de 30% do total de turistas estrangeiros no Japão. “E não é apenas isso, a produção e o consumo chinês podem ser prejudicados caso a situação se prolongue. Há preocupação de que isso poderia afetar a produção e as exportações japonesas, bem como os lucros corporativos.”

Nishimura também lembrou os riscos sobre a volatilidade do câmbio e do mercado de ações, e acrescentou que vai monitorar de perto as movimentações financeiras.

A Bolsa de Valores de Xangai, por exemplo, retomaria suas atividades na sexta (31), mas, até o momento, a informação é de que não voltará a operar até a próxima segunda-feira (3).

A expectativa de desaceleração da economia chinesa impacta diretamente países como o Brasil, que exporta diversos produtos, principalmente commodities (bens primários com cotação internacional) para o país asiático. Com menos exportações, menos dólares entram no país, pressionando a cotação da moeda americana para cima.

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