O Acidente Vascular Cerebral (AVC) segue como uma das principais ameaças à vida e à qualidade de vida da população brasileira. Apenas nos primeiros sete meses de 2026, dados do DATASUS revelam que a condição levou 50.424 pessoas à morte e causou 182.253 internações hospitalares no país. O impacto diário é avassalador: uma média de 860 hospitalizações e 238 óbitos por dia — o equivalente a uma vida perdida a cada 6 minutos.
O cenário epidemiológico atual reflete uma tendência contínua de alta. Entre 2020 e 2025, o total de internações por AVC no Sistema Único de Saúde (SUS) disparou 23,6%, subindo de 236.930 para 292.930 casos anuais. Para o tratamento hospitalar dessas urgências, os cofres do SUS já investiram R$ 216,1 milhões somente em 2026.
O avanço preocupante da doença entre jovens
Embora seja tradicionalmente associado à terceira idade, o AVC vem registrando um aumento preocupante na população jovem. Dados do Ministério da Saúde indicam que, na faixa etária de 15 a 49 anos, as internações aumentaram 16,9% de 2020 para 2025, saltando de 34.896 para 40.788.
Ao analisar o recorte de 14 a 50 anos, a escalada foi praticamente ininterrupta:
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2021: 36.841 internações
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2022: 39.724 internações
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2023: 41.646 internações
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2024: 42.269 internações (pico do período)
A Dra. Sheila Martins, neurologista e presidente da Rede Brasil AVC, adverte sobre os perigos do diagnóstico tardio nesse público. Como adultos jovens raramente se consideram em risco, o reconhecimento dos sintomas costuma ser negligenciado ou confundido com enxaquecas, intoxicações e outras condições clínicas.
Entre as origens e fatores de risco para essa faixa etária estão:
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Doenças cardíacas não diagnosticadas e arritmias (como fibrilação atrial);
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Associação entre uso de anticoncepcionais e tabagismo;
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Hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado e histórico familiar;
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Sedentarismo, má alimentação, obesidade, privação de sono, consumo excessivo de álcool e uso de drogas ilícitas.
“Uma pessoa de 30 anos que sofre um AVC pode ficar com sequelas que a impedem de trabalhar, estudar ou cuidar dos filhos. Isso impacta não apenas o indivíduo, mas toda a estrutura familiar e econômica ao seu redor”, enfatiza a médica.
Tipos de AVC e a regra de ouro: cada minuto conta
A conscientização ganha relevância no mês de outubro, marcado pelo Dia Mundial do AVC (29 de outubro), campanha liderada pela World Stroke Organization e promovida no país pela Rede Brasil AVC.
O AVC se manifesta em dois tipos principais:
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AVC Isquêmico (85% dos casos): ocorre pelo entupimento de uma artéria por placa de gordura ou coágulo do coração, privando o cérebro de sangue e oxigênio.
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AVC Hemorrágico (15% dos casos): ocorre pelo rompimento de um vaso dentro do tecido cerebral ou na sua superfície. Apesar de menos frequente, possui maior taxa de mortalidade.
Na ocorrência do AVC isquêmico, a rapidez é crucial. A cada minuto sem atendimento médico adequado, a pessoa perde cerca de 1,9 milhão de neurônios.
Como reconhecer os sinais com a sigla “VÁ De SAMU”
Para facilitar a identificação rápida dos sintomas, a Dra. Sheila Martins reforça a sigla educativa VÁ De SAMU:
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VA (Visão Alterada): perda ou alteração súbita na visão em um ou ambos os olhos.
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De (Desequilíbrio): tontura, perda de coordenação ou dificuldade para andar.
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S (Sorria): peça para a pessoa sorrir e observe se a boca fica torta ou descaída.
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A (Abrace): peça para a pessoa levantar os dois braços; note se um deles fraqueja.
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M (Mensagem ou Música): peça para repetir uma frase simples; observe se a fala está enrolada ou confusa.
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U (Urgente): ao notar qualquer um destes sinais, ou uma dor de cabeça súbita e intensa sem causa aparente, ligue imediatamente para o SAMU pelo 192.
Avanços no SUS: ampliação de medicamentos e nova rede de cuidado
Estimativas apontam que entre 80% e 90% dos episódios de AVC podem ser prevenidos com o controle da pressão, hábitos saudáveis e acompanhamento médico contínuo. Paralelamente às ações preventivas, o Brasil comemora avanços legislativos e estruturais na saúde pública.
Em setembro, a sanção de um novo projeto de lei reforçou o SUS com a expansão da oferta de medicamentos trombolíticos na rede de urgência e emergência. Esses fármacos atuam dissolvendo o coágulo que bloqueia a circulação cerebral no AVC isquêmico (e no Infarto Agudo do Miocárdio), aumentando substancialmente as chances de reabilitação sem sequelas graves.
Complementarmente, o Ministério da Saúde instituiu o Comitê de Acompanhamento da Implementação das Linhas de Cuidado dos Agravos Cerebrovasculares e Cardiovasculares Tempo-Dependentes. A iniciativa visa padronizar parâmetros assistenciais e qualificar o fluxo de atendimento em todo o território nacional.
Após 18 anos de parceria com o Ministério da Saúde, a Rede Brasil AVC se prepara para lançar no Dia Mundial do AVC um documento inédito contendo o Diagnóstico Situacional, Plano de Expansão e Monitoramento do AVC. O estudo mapeia a infraestrutura atual, identifica vazios assistenciais e orienta os gestores públicos para a ampliação progressiva do tratamento.
“Não basta ter o tratamento. É preciso ter uma rede preparada para reconhecer o paciente, encaminhar, tratar e acompanhar. Nosso objetivo é fazer com que o local onde uma pessoa vive não determine sua chance de sobreviver a um AVC ou de viver sem sequelas”, conclui a Dra. Sheila Martins.

