cancer de pulmao SUS x rede privada

40 meses contra 11: o abismo do câncer de pulmão entre o SUS e a rede privada

Ao Vivo de Brasília
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Um comprimido tomado diariamente, em casa, capaz de bloquear o crescimento do tumor de forma muito mais direcionada do que a quimioterapia convencional. Esse tratamento existe, está disponível no Brasil e representa um dos maiores avanços da medicina de precisão no câncer de pulmão.

Ele é indicado para pacientes cujo tumor apresenta uma alteração no gene ALK, encontrada em cerca de 5% dos casos de câncer de pulmão de não pequenas células, sobretudo entre pessoas mais jovens e que nunca fumaram.

O desafio, hoje, já não está em descobrir qual tratamento funciona. Está em garantir que ele chegue ao paciente certo, no momento certo. Dois estudos conduzidos pelo Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) e publicados na JCO Global Oncology, revista científica da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), mostram que o acesso desigual aos testes moleculares e às terapias-alvo ainda influencia diretamente os resultados do tratamento no Brasil.

Entre pacientes com tumores que apresentam alteração no gene ALK, aqueles atendidos pela saúde suplementar permaneceram, em média, 40 meses sem progressão da doença, enquanto os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) tiveram uma mediana de 11 meses. Três anos após o diagnóstico, 87% dos pacientes da rede privada permaneciam vivos, contra 61% dos atendidos pelo SUS.

Para o oncologista William Nassib William Jr., líder nacional da especialidade de tumores torácicos da Oncoclínicas, esses números mostram que o desafio da oncologia brasileira hoje não está apenas em desenvolver novos medicamentos, mas em garantir que as inovações cheguem, de fato, aos pacientes.

“O câncer de pulmão deixou de ser uma doença única. Hoje sabemos que existem diferentes subtipos moleculares e cada um deles responde melhor a tratamentos específicos. Identificar essas alterações é fundamental para definir a estratégia terapêutica mais adequada para cada paciente.”

O tratamento começa antes do primeiro remédio

A medicina de precisão parte de um princípio simples: compreender a biologia do tumor antes de definir o tratamento. Para isso, o primeiro passo é realizar testes moleculares capazes de identificar alterações genéticas como ALK, EGFR, ROS1, BRAF, MET e outras que podem ser alvo de terapias específicas.

Sem esse exame, o médico não consegue saber se o paciente é candidato a um tratamento direcionado e, muitas vezes, a quimioterapia convencional acaba sendo iniciada como primeira opção.

“Hoje, o teste molecular deixou de ser um exame complementar. Ele faz parte do diagnóstico do câncer de pulmão avançado e é indispensável para que possamos oferecer um tratamento personalizado”, explica o oncologista.

É justamente nessa etapa que começam as diferenças entre os sistemas público e privado. Um dos estudos ouviu mais de 150 oncologistas de diferentes regiões do país para entender como esses exames são incorporados à prática clínica. Enquanto 94% dos médicos da saúde suplementar relataram ter acesso rotineiro aos testes moleculares, esse percentual cai para 44% entre os profissionais que atuam no SUS.

Entre as principais dificuldades apontadas estão a ausência de financiamento para os exames, limitações estruturais dos serviços públicos e o tempo necessário para obtenção dos resultados. Em muitos casos, diante da necessidade de iniciar rapidamente o tratamento, a quimioterapia começa antes mesmo da conclusão da investigação molecular.

Quando o tratamento ideal não chega ao paciente

A consequência dessa dificuldade aparece nos próprios dados do estudo. Entre os pacientes identificados com alteração no gene ALK em 12 hospitais brasileiros, apenas 20% eram provenientes do SUS, apesar de aproximadamente três quartos da população brasileira dependerem exclusivamente da rede pública.

Segundo William William, esse número sugere que muitos pacientes sequer chegam a descobrir que possuem uma alteração genética tratável. “Quando o teste não é realizado, esses pacientes deixam de ser identificados como candidatos às terapias-alvo. É uma oportunidade perdida antes mesmo da definição do tratamento.”

Mesmo quando a alteração genética é identificada, uma nova barreira surge: o acesso aos medicamentos. Segundo os pesquisadores, terapias consideradas padrão internacional para tumores ALK-positivos estão amplamente disponíveis na saúde suplementar, enquanto sua utilização permanece bastante limitada em grande parte da rede pública.

Embora o SUS tenha incorporado o crizotinibe em 2022 e o brigatinibe em 2025, a implementação dessas tecnologias ainda enfrenta dificuldades relacionadas ao financiamento e à logística de distribuição.

O problema não está apenas na incorporação dos medicamentos, mas no modelo de financiamento. “A medicina de precisão parte do princípio de que nem todo tratamento é adequado para todos os pacientes. O objetivo é identificar quem realmente vai se beneficiar de uma determinada terapia. Para que isso aconteça no SUS, é preciso um modelo de financiamento que acompanhe essa lógica”, comenta o especialista, que também é um dos autores do estudo.

Os reflexos dessas barreiras aparecem nos desfechos clínicos observados pelo segundo estudo do GBOT, que analisou prontuários de mais de 100 pacientes tratados entre 2015 e 2020 em 12 hospitais brasileiros.

Além da menor sobrevida observada entre pacientes atendidos pelo SUS, os pesquisadores verificaram que o intervalo entre o surgimento dos primeiros sintomas e o diagnóstico costuma ser mais que duas vezes maior quando comparado ao observado na saúde suplementar.

Para o oncologista, essas diferenças são consequência de uma sucessão de obstáculos enfrentados ao longo da jornada do paciente. “Não existe um único fator responsável. O atraso no diagnóstico, a dificuldade para realizar os testes moleculares, o acesso limitado às terapias-alvo e o tempo necessário para que esses medicamentos estejam disponíveis acabam se somando e influenciando os resultados.”

Nos últimos anos, o Brasil avançou na incorporação de terapias-alvo e de exames moleculares, mas especialistas defendem que ainda é necessário reduzir a distância entre a aprovação dessas tecnologias e sua disponibilidade na prática clínica.

“O conhecimento científico já existe. Sabemos identificar quais pacientes podem se beneficiar e temos medicamentos capazes de mudar a história natural da doença. O próximo passo é garantir que esse avanço esteja disponível para todos, independentemente da rede de atendimento”, conclui William William.

Recentemente, o Ministério da Saúde anunciou a incorporação gradual de 23 novos medicamentos oncológicos de alto custo, entre eles brigatinibe, gefitinibe, erlotinibe e durvalumabe, utilizados também no tratamento do câncer de pulmão. Segundo a pasta, a ampliação da oferta deve beneficiar mais de 112 mil pacientes e faz parte da implementação do Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), iniciativa criada para padronizar protocolos clínicos e tornar mais eficiente a aquisição e a distribuição desses medicamentos na rede pública.

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