O câncer de pulmão é o tumor mais letal do Brasil, situando-se logo atrás apenas dos cânceres de próstata (em homens) e de mama (em mulheres). No entanto, novos dados científicos trazem um horizonte promissor para o tratamento da doença.
Dois estudos revolucionários apresentados durante o congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026), em Chicago (EUA), introduzem uma nova perspectiva para pacientes em estágio avançado.
Os resultados destacam o impacto da medicina de precisão e das terapias-alvo, que superam a quimioterapia tradicional ao combater mutações genéticas específicas do tumor.
Estudo CROWN: lorlatinibe alcança resultados históricos de sobrevida
A atualização de sete anos do estudo CROWN reforçou o impacto transformador da terapia-alvo no câncer de pulmão de não pequenas células avançado com mutações nos genes ALK ou ROS1 (pacientes ALK-positivo).
O ensaio clínico comparou a eficácia de dois inibidores da enzima tirosina quinase: o crizotinibe (precursor da classe) e o lorlatinibe (medicamento de terceira geração). Os dados apresentados na ASCO 2026 revelaram uma eficácia sem precedentes para o cenário metastático:
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Sobrevida livre de progressão: mais da metade (55%) dos pacientes tratados com lorlatinibe seguem vivos e sem progressão da doença após sete anos. No grupo do crizotinibe, essa taxa foi de apenas 3%.
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Redução de risco: o lorlatinibe reduziu em 81% o risco de progressão da doença ou morte em comparação ao tratamento anterior.
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Proteção cerebral: o estudo confirmou um controle intracraniano expressivo e resposta prolongada. Isso é fundamental, pois essa população costuma ser mais jovem e apresenta alta incidência de metástases cerebrais ao longo da evolução da doença.
“Esses resultados consolidam o lorlatinibe como um dos tratamentos mais eficazes já desenvolvidos em oncologia torácica”, afirma a Dra. Samira Mascarenhas, oncologista especializada em câncer de pulmão da Oncologia D’Or.
Estudo WU-KONG28: sunvozertinibe supera a quimioterapia
O segundo destaque do congresso, o estudo WU-KONG28, avaliou o medicamento sunvozertinibe, um inibidor da enzima tirosina quinase direcionado a mutações do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR).
O trabalho demonstrou que a terapia-alvo oral superou a quimioterapia baseada em platina como tratamento de primeira linha para pacientes com câncer de pulmão avançado com a mutação de inserção no éxon 20 do EGFR — um subtipo molecular raro e historicamente difícil de tratar.
Os dados comparativos entre o Sunvozertinibe e a Quimioterapia demonstraram:
| Indicador de Eficácia | Sunvozertinibe (terapia-alvo) | Quimioterapia baseada em platina |
| Mediana de sobrevida livre de progressão | 10,3 meses | 7,5 meses |
| Taxa de resposta objetiva | 58,9% | 31,1% |
| Duração mediana da resposta | 11,2 meses | 7,1 meses |
O uso do sunvozertinibe representou uma redução de 35% no risco de progressão ou morte. Os dados de sobrevida global ainda estão em fase de maturação, estabelecendo a droga como uma nova e eficaz opção terapêutica.
O desafio do diagnóstico de precisão no Brasil
Para a Dra. Samira Mascarenhas, a evolução da medicina de precisão permite desenvolver tratamentos cada vez mais direcionados para alterações moleculares específicas, superando a quimioterapia. Contudo, a especialista faz um alerta crucial sobre o cenário nacional:
“Não existe medicina de precisão sem diagnóstico de precisão. Os avanços só chegarão realmente aos pacientes quando o acesso ao diagnóstico molecular completo for ampliado e realizado em tempo adequado. Garantir a testagem molecular é essencial para oferecer tratamentos personalizados, com maior impacto em sobrevida e qualidade de vida”, ressalta a médica.
Câncer de pulmão no Brasil
De acordo com as estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para o ano de 2026, o Brasil deve registrar 35.380 novos casos de câncer de traqueia, brônquio e pulmão. O tabagismo continua sendo o principal fator de risco, com fumantes representando 75% dos diagnósticos.
Sintomas mais comuns:
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Tosse persistente;
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Falta de ar e cansaço;
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Dor torácica;
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Perda de peso inexplicável;
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Presença de sangue no escarro.
Diagnóstico tardio
Como os sintomas geralmente não se manifestam no início da doença, cerca de 70% dos pacientes recebem o diagnóstico já em estágio avançado, o que dificulta a eficácia do tratamento. Como reflexo desse cenário, em 2023 o país registrou 31.237 óbitos pela doença, sendo 55% das vítimas do sexo masculino. Os novos tratamentos apresentados na ASCO visam justamente modificar de forma profunda esse histórico de letalidade.


