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Guerra ao Terror

11 de Setembro: entenda a história e seu impacto no Afeganistão após 20 anos

Publicado

11 de Setembro
Foto/Imagem: Masatomo Kuriya


Era mais ou menos 9h50, horário de Brasília, do dia 11 de setembro de 2001 quando a programação da TV foi interrompida com a notícia de que um avião havia se chocado contra a torre norte do complexo industrial World Trade Center (WTC), em Nova Iorque, nos Estados Unidos. No primeiro momento, muita gente assumiu ser apenas um triste acidente. Até que um segundo avião bateu contra a torre sul e as manchetes mudaram de incidente para atentado.

Outros dois aviões caíram nos minutos seguintes, um deles no Pentágono, centro de planejamento militar do governo em Washington, e outro em uma região desabitada da Pensilvânia. Logo se descobriria que os ataques haviam sido orquestrados pelo grupo terrorista Al-Qaeda.

Os atentados mataram quase três mil pessoas e levaram os Estados Unidos a declarar a chamada Guerra ao Terror. O primeiro alvo foi o Afeganistão, ainda em 2001, sob a alegação de que o país escondia o mentor dos atentados, o terrorista Osama Bin Laden. Em reação, o presidente americano, o republicano George W. Bush, prometeu “vencer a guerra contra o terrorismo” e acusou o Talibã, grupo que governava o Afeganistão, de abrigar o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden. Em outubro de 2001, o exército americano iniciou os bombardeios no Afeganistão contra o Talibã, dando início a mais longa guerra em que os EUA se envolveram. Seus objetivos públicos eram desmantelar a Al-Qaeda e negar-lhes uma base segura de operações no Afeganistão removendo o Talibã do poder. O regime se desfez rapidamente com os ataques e a ONU pediu um papel central no estabelecimento de uma administração transitória no Afeganistão.

Em 2013, as forças afegãs assumiram a liderança na responsabilidade pela segurança em todo o país e, um ano depois, o presidente Obama anunciou um cronograma para a retirada da maioria das forças dos EUA do Afeganistão, com acordo de treinamento das tropas afegãs e realizações de operações pontuais contra grupos terroristas.

No entanto, em agosto de 2021, em meio à retirada parcial de tropas americanas e enfrentando pouca resistência, o Talibã acabou tomando conta da capital, Cabul, e assumiu novamente o controle do país. A cena de milhares de pessoas invadindo o aeroporto, na esperança de fugir, enquanto os países ocidentais organizavam a evacuação de seus cidadãos, chocaram o mundo. Mais de 122.000 estrangeiros e afegãos foram retirados por via aérea de Cabul.

Coordenador do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário IESB, Marco Meneses aponta a atual situação do Afeganistão como um reiterado fracasso da política de mudança de regime. Para ele, as cenas que surgiram enquanto o Talibã avançava para recuperar seu território e domínio no Afeganistão trouxeram um lembrete gritante para a inadequação das consequências da invasão de 2001. “Nas últimas semanas, os acontecimentos no Afeganistão trouxeram à tona preocupações com relação ao futuro daquele país. As cenas veiculadas principalmente pelos meios de comunicação ocidentais têm delineado as preocupações de muitos, além de apontar para a concretização de mais um fracasso das iniciativas de mudança de regime dos EUA na política externa, especificamente no que diz respeito ao Oriente Médio, um acúmulo de fracassos reiterados e seus elevados custos políticos, econômicos, étnicos, sectários e humanitários”, afirma Meneses.

Afinal, qual era o grande plano para o Afeganistão? Qual era o diagnóstico da situação sob o domínio do Talibã ainda em 2001? Que proposta havia para que o governo a ser construído se convertesse em um regime representativo de uma nova era? Quais eram as políticas que lhe dariam sustentação? Como seria a transição para o autogoverno? De acordo com o professor, essas perguntas são pertinentes a partir da concepção, planejamento e implantação de políticas de construção de Estado, mas permanecem sem respostas. “Sejamos claros, não há culpa suficiente para ser distribuída entre os diversos governos que se seguiram à decisão desastrosa de George W Bush de intervir no Afeganistão após o 11 de setembro, dele a Biden, passando por Obama e Trump. Naquela época, e ao contrário das práticas consensuais do multilateralismo, a resposta do Talibã às exigências dos Estados Unidos pela entrega de Osama bin Laden, condicionada à apresentação de provas de que esse e Al-Qaeda estivessem envolvidos nos ataques, foram veementemente postas de lado. Assim, o regime do Talibã foi responsabilizado pelos ataques atribuídos a Al-Qaeda que operava dentro (e além) das fronteiras afegãs, uma inconsistência que poucos analistas confiavam que não fosse intencional”, explica o professor de História Social e Política do Oriente Médio.

Meneses avalia o fracasso estadunidense no Afeganistão como emblemático e convida a uma reflexão crítica da política de mudança de regime. “Por ela, e há décadas, a política externa dos Estados Unidos contempla a opção de intervir em outros Estados, substituindo governos que lhes apresentariam ameaças. Foi assim com a derrubada de Mohammad Mossadegh, primeiro-ministro de orientação nacionalista no Irã, em 1953; depois com a Líbia; e a invasão do Iraque, em 2003, para a remoção do regime de Saddam Hussein. Essa postura neoimperialista é frequentemente levada a cabo sob a justificativa de se colaborar para o estabelecimento de um regime político, estável, democrático, e preferencialmente sob égide de uma economia de mercado. Na prática, os resultados das mudanças de regime têm sido desastrosos”, reforça o professor.

Segundo ele observa, assim como nos outros cenários, a população não esteve no centro das preocupações na reconstrução do Afeganistão, tendo em vista o abandono da sociedade civil e política, o que levou à recondução do Talibã. Tampouco as denúncias dos excessos das operações militares e o acúmulo de danos colaterais – jargão militar para a morte e o ferimento de inocentes – ajudaram na conquista de corações e mentes. O argumento da estabilização regional também apresenta resultados particularmente negativos, pois os fluxos migratórios que há décadas produzem pedidos por refúgio em diversos países já demonstram intensificação célere. Ao interesse nacional estadunidense, categoria de difícil precisão e sujeita às interpretações dos governos de ocasião, falta o entendimento que demonstrem claramente as mudanças substanciais no Afeganistão que justifiquem a inequívoca necessidade da retirada neste momento.

Destacam-se os enormes custos financeiros e humanos para a intervenção de vinte anos no Afeganistão, com poucas vitórias políticas para demonstrar, ao menos se considerados a partir da perspectiva da população afegã, em nome de quem se implementou a mudança de regime. “A deterioração e o colapso do experimento de construção do Estado no Afeganistão são aguardados há muito tempo, tendo em mente um longo histórico de fracassos. A alternativa a focar nas especificidades do desastre em questão seria concentrarmos nossa crítica na política de mudança de regime para a região e seus efeitos desastrosos para a política global”, conclui Meneses.

Atualizado em 04/09/2021 – 12:07.

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